A primeira versão do dossiê da Pesquisa com vistas ao registro do congo como Patrimônio Imaterial Nacional foi entregue pela equipe ao Iphan-ES no início de abril, mas o trabalho de avaliação e de revisão foi até julho. Neste período, foram finalizados os vídeos da pesquisa, que foram editados, também, em DVD; e foi impressa uma tiragem de 70 exemplares do dossiê, para distribuição entre as bandas. Os DVDs com os vídeos e os exemplares do dossiê foram entregues ao Iphan-ES em novembro, para serem distribuídos entre as bandas de congo.
Esta pesquisa é o estudo mais abrangente acerca do congo do Espírito Santo, e não é à toa que seus resultados desafiem as concepções superficiais e referências bibliográficas incompletas. Esses são dois aspectos que vêm marcando a literatura sobre o congo desde os tempos do folclorista Guilherme Santos Neves. Sua fama faz com que seus escritos sejam reproduzidos e citados acriticamente, tanto em relação à factualidade do conteúdo, como epistemologicamente: Neves “celebra” o congo reforçando estereótipos, tratando conguistas com indisfarçável complacência.
“O congo é característico do litoral capixaba” e o mito do naufrágio
Esta afirmação vem sendo reproduzida em artigos, blogs, e depoimentos de “estudiosos”, talvez influenciados pelo relato mítico do salvamento dos náufragos do navio negreiro. Se, por um lado, os mitos podem expressar as visões de mundo de um grupo, não o fazem reproduzindo a realidade factual (ELIADE, 1972; GOODY, 2012). Ou seja, o mito é uma projeção coletiva do mundo, que influencia o entendimento de cada indivíduo, mas não “explica” a realidade, nem aponta nenhuma perspectiva futura. Mestre Ricardo Sales, da Banda de Congo Amores da Lua, de Vitória, afirma em seu depoimento para a equipe de pesquisa, em março de 2020:
Eu aprendi desde a idade de cinco anos, junto com os meus avós e com meu pai, Mestre Rui, é que a Festa de São Benedito, a Puxada e a Fincada do Mastro, simbolizam um trabalho escravo naquela hora, naquele momento, (…) aonde e a gente puxa e finca o Mastro que é o marco na tradição do congo. E ali a gente agradece pelas graças alcançadas e pelos momentos que a gente passou durante o ano, que a gente vem buscar e pedir pelo novo ano.
Esta fala aparece no filme Congo do Espírito Santo: Celebrações e Formas de Expressão (2020, 62 min.), que acompanha o dossiê de pesquisa. Mestre Ricardo tem consciência de que o ritual que encena o naufrágio do navio negreiro é uma forma estilizada de se referir à luta e ao sofrimento dos escravos, dos mais humildes; e também ao esforço coletivo que marca toda a tradição do congo. Diga-se de passagem que esta encenação, como quase todos os aspectos isolados do congo, não ocorre em todas as bandas, sendo característico das localidades da Serra, de Fundão, de Ibiraçu e de Vitória.

O mapa da localização das bandas de congo, junto com as informações acerca de como cada comunidade iniciou seus festejos, demonstra que a ocorrência de bandas no interior não se deu pela migração do litoral, mas por outras motivações locais: a fé e a necessidade de manifestar sua devoção por parte das famílias fundadoras de cada banda.
As “referências históricas” ao congo
O artigo “Bandas de Congos do século XIX”, publicado em 1965 por Guilherme Santos Neves no boletim Folclore, inaugurou uma espécie de “tradição” historiográfica que vem sendo repetida acriticamente desde então. O texto tem, a nosso ver, grandes problemas conceituais: trata como “referências históricas” textos que não foram escritos com esta intencionalidade, tratando-se, quase sempre, de crônicas de viagem e memórias; assume como “bandas de congos” manifestações que não foram literalmente identificadas como tal pelos autores dos textos; e, mais grave, mistura suas próprias concepções de congo às citações dos textos, produzindo uma narrativa que se pretende “histórica”, mas que está mais próxima do artigo de opinião.
Esta “história” do congo vem sendo repetida em diversos artigos acadêmicos, que, no mínimo, não fazem uma revisão epistemológica crítica. Não se pode cobrar de Neves que se comporte como o historiador que ele não se propôs a ser: na academia, é necessário que os textos sejam lidos dentro de seu contexto, e não como verdade factual. E este erro é agravado pela observação de que os supostos fatos históricos narrados são levados em consideração, mas quase não se faz referência ao panorama histórico-social da época dos escritos. A vasta produção historiográfica e sociológica sobre a sociedade capixaba dá conta da escravidão, do genocídio indígena, da colonização extrativista e dos movimentos macroeconômicos que marcaram a história do Espírito Santo e do Brasil, mas estes elementos são deixados de lado em favor de narrativas pitorescas sobre as supostas origens do congo.
Reducionismo
“Cada banda tem o sua forma de dançar, suas vestimentas…” Foi assim que Mestre Ricardo Sales, da Banda Amores da Lua, descreveu sua visão do universo mais geral do congo, que apresenta grande diversidade de práticas e motivações. Não há nenhum elemento que especificamente, se possa dizer como presente em todas as bandas de congo. Nem todas as bandas realizam fincadas de mastro, por exemplo, e há, pelo menos uma banda cujo mastro é fincado sem bandeira. As puxadas de barco, como elemento das fincadas de mastro, só ocorrem nas bandas de Serra, Fundão, Ibiraçu e Vitória. As formas de se apresentar de cada banda, quando parada ou em cortejo, variam muito, como também os toques de tambor ou casaca. As formas de dançar são igualmente variadas. As origens demográficas de cada banda são muito diversas: trabalhadores urbanos em alguns lugares, pequenos proprietários rurais, em outros, além de quilombolas e indígenas, em alguns. E, obviamente, cada grupo produz suas inovações próprias, na forma de toadas, roupas, cultos e rituais.
Deste modo, quando se pretende a uma investigação mais séria sobre o congo, não se pode resumi-lo a descrições generalizantes, como as que o vinculam exclusivamente ao mito do naufrágio, ou que casaca seria o sinal inequívoco de sua originalidade. Mário de Andrade o definiria como “dança dramática”; Santos Neves, como “conjunto musical típico do folclore”. Em nosso estudo etnomusicológico, tratamos a parte “musical” do congo como parte integral da devoção, em que os parâmetros da arte, da música ou da dança, como a definimos no ocidente, são de validade limitada.
O Congo do Espírito Santo como Patrimônio Imaterial Nacional – conclusões do dossiê
No Decreto 3.551/2000, de instituição do patrimônio imaterial no Brasil, os livros de registro a que este dossiê se candidata são assim definidos:
II – Livro de Registro das Celebrações, onde serão inscritos rituais e festas que marcam a vivência coletiva do trabalho, da religiosidade, do entretenimento e de outras práticas da vida social;
III – Livro de Registro das Formas de Expressão, onde serão inscritas manifestações literárias, musicais, plásticas, cênicas e lúdicas; (BRASIL, 2000, p. 1).
Não nos parece haver dúvida, face ao exposto, da pertinência de inscrever o congo do Espírito Santo no Livro de Registro de Celebrações. Os rituais do congo referem-se não somente à devoção como também às formas de atuação coletiva, comunitária. Além disso, como indicamos na seção que descreve às dificuldades que ameaçariam o bem cultural, as festas têm sido, muitas vezes, sequestradas por eventos que fogem do controle dos conguistas, descaracterizando seus rituais. Ou seja, as festas do congo são, ao mesmo tempo, a forma de expressão primordial da devoção a São Benedito (que inspira a devoção congueira aos demais santos), e também a arena (entendida como palco e campo de batalha) dos principais conflitos com a sociedade em geral.
Uma vez inscrito no Livro das Celebrações, o congo estará ao lado de outras festas populares de religiosidade cristã, como as Festas do Divino Espírito Santo, o Círio de Nossa Senhora de Nazaré, e o Pau da Bandeira de Santo Antônio em Barbalha, por exemplo; e, dentre estas, será o primeiro bem cultural desta categoria que tem seus ritos mantidos e renovados por entidades populares, não institucionais. Mesmo que algumas festas sejam “adotadas” pelo Estado, e contem com patrocínios de empresas; e mesmo considerando que várias bandas estão registradas como sociedade civil, com inscrição de CNPJ, as celebrações do congo têm suas origens e força motriz nas bandas de congo, estruturas familiares e comunitárias que realizam seus ritos com muita dedicação, esforço e muitas vezes, sacrifício.
No entanto, o congo não se realiza, somente, nas festas a São Benedito. Diferentemente de outros bens registrados nesta rubrica, o congo não se resume ao calendário festivo; em muitos casos, de acordo com os entrevistados nesta pesquisa, a motivação inicial na formação de quase todas as bandas foi a devoção, que se expressa no ritual da festa, que pode ter cunho privado, familiar, ou de vizinhança. A participação em eventos públicos, a assimilação da festa por paróquias católicas, e o aparecimento de festivais veio depois, mas, como fenômeno externo, não é um desenvolvimento herdado daquela devoção inicial.
As festas do congo são, assim, momentos em que papeis sociais são compreendidos e redistribuídos; em que há o movimento da música e da dança, mas que obedecem aos ritos de devoção; há consumo de comidas e bebidas, mas dentro de regras próprias que diferenciam a prática do congo das formas diversas de entretenimento coletivo. A partir das festas, porém, os congueiros produzem farta expressão cultural, manifesta em toadas e ritmos, estandartes e bandeiras, vestimentas e adereços. E, apesar de o universo do congo ser rico de manifestações artísticas, estas não podem ser inscritas nas convenções da arte, e sim, como uma relação aurática com a vida, determinando formas de devoção e comportamento ético.
Mais do que a produção artística de artefatos, ritmos e poesia, o congo é uma forma de expressão de uma postura ética frente à vida, calcada na experiência comunitária, no respeito aos saberes dos anciãos na formação dos jovens, na inventividade que se inspira na tradição, e numa identidade coletiva que se abre para um conceito de pertencimento inclusivo. O congo, assim, é cultura no seu sentido mais amplo: herança e renovação; o que permite entender o mundo, e também transformá-lo.
Portanto, registrar o congo do Espírito Santo em apenas um dos livros citados acaba por não dar conta dos conceitos envolvidos nas práticas das bandas, seus mestres, conguistas e devotos. Nossa posição é de que o congo é, efetivamente, uma forma de expressão que se realiza na festa, entendida com um conjunto de práticas rituais; a festa se expressa de diversas maneiras, e confere significado, para seus praticantes, a situações diversas de suas vidas. Faz parte da educação das crianças das comunidades congueiras, e confere experiências de pertencimento e realização que não são acessíveis, comumente, aos extratos sociais de que os congueiros fazem parte.
O dossiê de Pesquisa pode ser acessado aqui: Dossiê com vistas ao registro do Congo do Espírito Santo como Patrimônio Imaterial Nacional. Uma versão resumida, publicada em 2022 pelo IPHAN-ES, pode ser acessada aqui: Congo do Espírito Santo – pesquisa de identificação.
O Projeto de Pesquisa com vistas ao Registro do Congo do Espírito Santo como Patrimônio Cultural Imaterial Nacional (Patrimonialização do Congo do ES) foi criado através de uma parceria, via Termo de Execução Descentralizada, entre o Iphan-ES e a Universidade Federal do Espírito Santo, com o apoio da FUCAM. Além dos professores Elisa Ramalho Ortigão e José Otavio Lobo Name, participam do projeto os bolsistas de pesquisa João Victor dos Santos, Daniel Zürcher, Matheus Giacomin Sian e Felipe Mattar.
Bibliografia
ANDRADE, Mario de. Danças Dramáticas do Brasil. Rio de Janeiro: UNIRIO, s. d.
ELIADE, Mircea. Mito e Realidade.São Paulo: Perpectiva, 1972.
GOODY, Jack. O mito, o Ritual e o Oral. Petrópolis, RJ: Vozes, 2012.
NAME, José Otavio Lobo; ORTIGÃO, Elisa Ramalho. Congo do Espírito Santo: Celebrações e Formas de Expressão. Dossiê de Pesquisa com vistas ao registro do Congo do Espírito Santo como Patrimônio Imaterial Nacional. Vitória: Iphan-ES/UFES, 2020.
NAME, Jo. Congo do Espírito Santo: Celebrações e Formas de Expressão. 62 min., cor, 2020.
NEVES, Guilherme Santos. Bandas de Congos. Cadernos de Folclore 30. Rio de Janeiro: FUNARTE, 1980.
Para citar este artigo:
NAME, José Otavio Lobo; ORTIGÃO, Elisa Ramalho. “O dossiê da pesquisa e seus resultados”. In O Congueiro – congo do Espírito Santo. 2020. Acessível em: https://ocongueiro.com/2020/12/08/o-dossie-da-pesquisa-e-seus-resultados/

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