Sobre entrevistas, conversas e trabalho de campo.

Uma parte significativa do trabalho de campo da pesquisa de identificação com vistas à inscrição do congo como Patrimônio Imaterial Nacional está na realização de entrevistas com os detentores do bem cultural: Mestres, Rainhas, coordenadores e integrantes das bandas de congo. Ao lado das gravações de rituais e performances, as entrevistas garantem que o resultado da pesquisa será estabelecido com o conhecimento, a concordância e efetiva participação de quem é do congo.

Na pesquisa bibliográfica que vimos fazendo sobre o congo desde que começamos nossos estudos, aparece um problema recorrente: nestes textos, os personagens, as histórias, e os significados – os saberes do congo, enfim – têm sido apropriados por autores que, via de regra, se autocelebram como “conhecedores do congo”. Mais de uma vez ouvimos que não podíamos deixar de falar com fulano, ou de ler o livro de sicrano, sempre com referência a um estudioso do congo.

Não é à toa que, ao contatarmos as bandas para marcar as entrevistas, encontramos alguma resistência dos conguistas, que não só estão cansados de responder às mesmas perguntas, como também sentem-se alijados de seus saberes, por não receberem nenhum retorno, ou, quando há algum, é na forma de um livro já publicado, em que o teor da entrevista não foi revisado pelos entrevistados, cujo conhecimento aparece apropriado pela voz do autor. É óbvio que temos plena consciência de que, na sociedade, quem escreve um livro tem status superior a um detentor de saber tradicional; e de que uma pesquisa social pode não alterar em nada a vida de um conguista, mas garantir ao pesquisador o título de doutor, com as vantagens que isso acarreta. Ou seja: se nas comunidades tradicionais o conhecimento é um bem comum compartilhado pelos mais velhos às novas gerações, na sociedade capitalista o conhecimento é mercadoria e poder.

Adeus viola, adeus sussena

(DO CANCIONEIRO DA BANDA AMORES DA LUA)

Viola velha chorando porque não vem
Na subida da ladeira me mataram Pedro Cem
Passarinho na gaiola chem chem
eu procuro e não acho meu bem.
adeus viola, adeus sussena
Sou gavião da talaia

quem sabe ler não trabalha.

A consciência deste processo da sociedade não justifica que pesquisadores se acomodem em suas posições, reforçando um discurso hegemônico de suposta superioridade intelectual, como se o saber tradicional tivesse que ser traduzido em academês para ser efetivamente compreendido e divulgado; e de o crédito ser inteiramente do tradutor.

Nossas entrevistas não seguem nenhum formulário pré-estabelecido, apesar de anotarmos, antecipadamente, as questões que queremos levantar em cada grupo. Estas questões nascem dos eixos da pesquisa, de modo geral, e, principalmente, de estudos preparatórios sobre cada banda que visitamos. Como já estamos envolvidos com o congo há mais de cinco anos, não só participando das festas, mas também desenvolvendo pesquisas, parte da preparação vem dos conhecimentos que adquirimos na convivência e nas conversas com integrantes de diversas bandas. Nesta convivência, conquistamos a amizade e a confiança de alguns conguistas que, por vezes, atestam nossa idoneidade frente aos mais “desconfiados”. Além disso, também contamos com o levantamento preliminar realizado por uma equipe contratada pelo IPHAN, realizado entre 2014 e 2015, além da já mencionada revisão bibliográfica, a despeito dos problemas apontados. Consideramos ser não só amadorismo, mas desrespeito, ir para uma entrevista sem nenhum conhecimento prévio sobre os entrevistados.

Deste modo, a cada encontro, levamos o que já sabemos sobre a banda em questão, e a região; as questões e conhecimentos já acumulados pelas entrevistas anteriores, e a informações sobre o trabalho que estamos realizando, quem somos, e qual nosso envolvimento com o congo, tanto no aspecto acadêmico, quanto pessoal e devocional. As reuniões têm a informalidade de uma conversa, mas com a seriedade de uma discussão: algumas vezes somos interpelados sobre os processos da pesquisa com a mesma curiosidade analítica que a pesquisa tem sobre os saberes do congo.

As entrevistas têm duração média de pouco mais de duas horas, e iniciam, após todos se apresentarem e se acomodarem, com o pedido de gravação audiovisual. Em seguida, é feita uma extensa explanação sobre todo o processo da pesquisa. Muitos dos entrevistados receberam a equipe anterior do IPHAN, mas não tiveram acesso ao levantamento preliminar que possuímos, e nossa visita é a primeiro retorno que recebem daquela conversa. Apresentamos um histórico da pesquisa, incluindo as etapas que não estavam sob nossa coordenação; explicamos de que se trata a inscrição como Patrimônio Imaterial, sobre os livros de registro, com exemplos de outros bens já registrados; explicamos a etapa atual do trabalho, que é a de identificação dos bens culturais, com vistas ao dossiê de candidatura ao registro, e quais as etapas posteriores e seus prazos estimados; e abordamos a questão do levantamentos dos problemas e ameaças ao bem cultural e das formas como, com o envolvimento dos grupos detentores, podem ser elaboradas ações de salvaguarda do bem.

Entrevista com Mestre Joel, da Banda de Congo de Piranema, Cariacica

De modo geral, é a partir de algum ponto da explanação inicial que se inicia a conversa, que vai sendo desenvolvida na troca de perguntas, respostas e considerações de ambas as partes, sobre os assuntos relativos ao congo e sobre a pesquisa, em si. Afinal, se fazemos constante revisão de nossas perspectivas de pesquisa é por termos ouvido, com atenção, profundas reflexões de mestres, rainhas e conguistas sobre os saberes em pauta, e suas formas de transmissão, o que inclui a acadêmica, de forma crítica. Ou seja: não podemos nos amarrar a uma metodologia, sem atentar para a validade, em termos de saber coletivamente compartilhado, de seus resultados. É onde aparece a questão da apropriação dos saberes, práticas, símbolos, e formas de expressão que são produção cultural dos conguistas, por segmentos da sociedade que já usufruem de privilégios sociais, culturais e econômicos. É onde aparecem a espetacularização, a “economia criativa”, a cultura em posição inferior ao turismo.

Se a inscrição do congo como patrimônio servir apenas para que a sociedade afluente passe a consumir congo, então é melhor parar tudo agora. Mas investimos nosso tempo e capacidade na perspectiva de que a inscrição do congo irá conferir aos detentores a sua propriedade sobre o bem: são os conguistas que devem ensinar a tocar e dançar congo; são os mestres e rainhas que devem ensinar os seus saberes; a economia do congo deve ser benéfica para quem, atualmente, faz congo sem ter nenhum auxílio financeiro.

Por fim, um outro aspecto importante de nossa metodologia de entrevista, que é necessário destacar, diz respeito ao consentimento informado. Esta é uma expressão acadêmica que, de certa forma, virou somente um clichê: “é preciso fazer os entrevistados assinarem um consentimento de pesquisa”. Para nós, é onde reside a base do relacionamento que procuramos estabelecer com nossos interlocutores; é, além de uma formalidade, um “contrato”, como forma de respeito mútuo entre partes que têm interesses às vezes confluentes, às vezes diversos, sobre as questões em pauta. Por isso, elaboramos um formulário de consentimento informado que é lido e explicado aos presentes, com uma cópia que é distribuída aos entrevistados. Nele, além do texto em que os entrevistados afirmam concordar com a pesquisa, nós, como pesquisadores, afirmamos nossos compromissos para com eles:

Os pesquisadores garantem aos informantes que são seus direitos:

  1. Direito de ser informado sobre a natureza da pesquisa.
  2. Direito de recusar-se a participar da pesquisa.
  3. Direito de preservação de sua intimidade, de acordo com seus padrões culturais.
  4. Garantia de que a colaboração prestada à investigação não seja utilizada com o intuito de prejudicar o grupo pesquisado.
  5. Direito de acesso aos resultados da pesquisa.
  6. Direito de autoria e co-autoria das populações sobre sua própria produção cultural.
  7. Direito de ter seus códigos culturais respeitados e serem informadas, através de várias formas sobre o significado do consentimento informado em pesquisas realizadas com pessoas.

Ao lado da seriedade com que conduzimos nosso trabalho, damos muita importância também ao tipo de relacionamento pessoal que observamos no congo, onde encontramos pessoas maravilhosas e muito educadas que sabem receber os de fora com distinção e carinho. Foi o que adotamos como parte de nossa metodologia: sempre trazemos, às reuniões, um bolo, pois “não se visita ninguém de mãos vazias”, como manda a boa educação tradicional. E assim, com o café com que somos recebidos, a entrevista se torna, ao final, uma confraternização.

O Projeto de Pesquisa com vistas ao Registro do Congo do Espírito Santo como Patrimônio Cultural Imaterial Nacional (Patrimonialização do Congo do ES) foi criado através de uma parceria, via Termo de Execução Descentralizada, entre o Iphan-ES e a Universidade Federal do Espírito Santo, com o apoio da FUCAM. Além dos professores Elisa Ramalho Ortigão e José Otavio Lobo Name, participam do projeto os bolsistas de pesquisa João Victor dos Santos, Daniel Zürcher, Matheus Giacomin Sian e Felipe Mattar.

Para citar este artigo:
NAME, José Otavio Lobo; ORTIGÃO, Elisa Ramalho. “Sobre entrevistas, conversas e trabalho de campo”. In O Congueiro – congo do Espírito Santo. 2019. Acessível em:https://ocongueiro.com/2019/12/14/sobre-entrevistas-conversas-e-trabalho-de-campo/.

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