“Festa de São Benedito” (documentário, 2018, 38 min.)

Apresentação de artigo de José Otavio Lobo Name sobre o documentário no VI Congresso da Associação Latino-americana de Antropologia, em 28 de novembro de 2020:

O documentário “Festa de São Benedito” reúne cenas captadas durante os três principais rituais da Banda de Congo Amores da Lua em sua Festa, que vai de dezembro ao Domingo de Páscoa. Antes de discorrer sobre cada um destes eventos, cabe aqui uma contextualização, que não se pretende essencialista, no sentido de eu querer definir, por minha conta, o que é o congo. Dentre as dezenas de grupos que fazem parte do universo congueiro existem práticas bastante diversificadas, que se unem, de meu ponto de vista, por meio da auto-identificação de seus praticantes com um conceito difuso de “ser do congo”. Em algumas localidades, as festas do congo, “adotadas” pela sociedade civil, transformaram-se em eventos grandiosos, repletos de atrações paralelas aos rituais, como a contratação de shows, farto comércio de bebidas e comidas e a montagem de parquinhos e barracas de diversões. Não é o caso da Banda de Congo Amores da Lua. Apesar de dar o título de “festa” ao conjunto de rituais com que expressa sua devoção, não há, nas celebrações dessa banda nenhum evento paralelo, de caráter pagão ou comercial; mesmo o consumo de bebidas, quando acontece, ocorre por iniciativa de ambulantes que aproveitam a grande concentração de pessoas presentes. E mesmo nestas ocasiões, os integrantes da Amores da Lua somente são autorizados a beber depois de cumprida sua função. Para a Amores da Lua, a Festa de São Benedito é um momento de fé, de cumprimento das obrigações para com o Santo, e de retribuir as graças alcançadas.

 

Os três principais eventos da Festa são a Cortada do Mastro, a Puxada e Fincada do Mastro, e a Derrubada do Mastro de São Benedito, e, ao apresentar cada um, irei discorrer sobre o processo de captura e de edição das imagens.

A Cortada do Mastro de São Benedito é sempre realizada em 8 de dezembro, Dia de N. S. Conceição. O “Calendário Sagrado Coração de Jesus”, editado pela Ordem dos Frades Menores e publicado pela Editora Vozes, chama essa data de “Dia da Imaculada Conceição de Nossa Senhora”. Neste dia, a Banda sai da casa dos Mestres, no bairro de Santa Martha (Vitória, ES), cantando e dançando suas toadas, até a beira da mata de Mulembá, distante cerca de 1,5km, no bairro vizinho de Joana D’Arc. Lá, o mastro é simbolicamente cortado; na verdade, um tronco qualquer foi separado, nos dias anteriores à Cortada. Recolhido o “mastro”, o cortejo retorna à casa dos Mestres. Este é o único dos eventos que pode cair em qualquer dia da semana, sem feriado; e, normalmente, só participam da Cortada as pessoas mais ligadas à banda. O cortejo até a mata e de volta tem que ser realizado em meio ao trânsito do fim da tarde, e boa parte do trajeto é realizado na Rodovia Serafim Derenzi, um via estreita, de tráfego intenso, com calçadas precárias ou quase inexistentes, em alguns trechos. E ainda, por uma dessas ocasiões em que os saberes tradicionais precederam a ciência meteorológica, sabe-se que é comum chover no Dia de N. S. Conceição. Esses fatores mais ou menos previsíveis conferem a essa data algumas características: tempo escuro, chuvoso, num desfile “compacto” devido à quantidade de pessoas e ao trânsito. De minha parte, percebo também certo espírito inaugural – a banda volta se reunir depois de algum tempo em que só saiu para eventos “mundanos”; a tarefa de ir buscar o mastro no mato remete-me a uma ideia de esforço coletivo do trabalho comunitário.

Antes de continuar, devo dizer que, apesar de a crescente experiência ter me imbuído de certa capacidade de prever os acontecimentos, não produziu o efeito da repetição. O mais comum é que, até o instante em que a função realmente irá iniciar, eu não tenha ainda muita certeza de como irei fazer a filmagem. Mas, obviamente, faço sempre uso da preparação logística para o trabalho, na escolha da objetiva e dos acessórios, e na regulagem da câmera. Na Cortada, geralmente uso uma objetiva 18-135 mm, que me permite variar entre um quadro de bem aberto para enquadramentos fechados em teleobjetiva. Produzo, assim, algumas cenas em que se pode perceber como a banda é obrigada a disputar a rua com o trânsito, e cuidar da segurança de seus membros, principalmente das crianças e dos mais velhos. Em outros momentos, a relativa escuridão do entardecer e do dia chuvoso se alterna com momentos em que a paisagem se abre, próximo à mata, ou mesmo quando a banda retorna à casa dos mestres, jubilosa pela tarefa cumprida.

No dia de Natal, ocorre a Puxada e Fincada do Mastro, em que a banda sai em cortejo, para aquilo que Mestre Ricardo Sales descreve como o “ponto alto” dos festejos. Neste dia, o tronco recolhido na Cortada é substituído pelo Mastro, que é sempre o mesmo, ano após ano. É colocado sobre uma réplica de navio que está apoiado em um carro de duas rodas, puxado por quatro ou cinco devotos; à frente, o povo segura uma longa corda – é a Puxada. A banda vai atrás, percorrendo os bairros vizinhos, e termina o trajeto de cinco quilômetros em frente à capela de São Benedito, onde ocorre a Fincada do Mastro. É um dia de grande confusão, devido ao grande público presente. Especialmente porque, para aqueles já excitados pelas comemorações do dia de Natal, este é um momento de farra e dissolução. A maioria, no entanto, está ali para celebrar o Santo, mesmo que de forma mais festiva, sem o compromisso dos conguistas. Neste contexto, procuro estar sempre junto das pessoas, sejam os conguistas, os que puxam o barco ou a corda, ou ainda pessoas do público; e, para isso, uso uma objetiva zoom grande-angular (17-35 mm) bastante luminosa (f/2.8), o que permite filmar quando a luminosidade diminuir com o cair da noite. O espaço é exíguo, principalmente junto à banda, ou entre esta e o barco, e a grande-angular permite-me enquadramentos relativamente amplos em espaços apertados. O roteiro dura de 3 a 4 horas, e por isso a luz varia em intensidade e qualidade: no início, tem-se o sol de verão do meio da tarde; no fim, a noite escura com a inconstância da iluminação pública.

Por fim, a Derrubada do Mastro é realizada no Domingo de Páscoa. Saindo da casa dos Mestres, a banda vai até a capela, recolhe o Mastro que esteve ali fincado desde o Natal, e retorna ao ponto de partida. Cada um desses momentos, que podem parecer semelhantes ao espectador desavisado, é vivido pela banda e pelos devotos de maneira distinta. Neste dia, os membros da banda, e seus agregados mais próximos, estão se reunindo pela primeira vez desde o fim de janeiro, quando entrou em sua “quaresma”. Neste período, Mestre Ricardo não aceita nenhum convite para se apresentar, e não há nenhum evento religioso que demande sua participação. Há, por isso, um ambiente de reencontro, quando se comentam as atividades de férias, “o quanto as crianças cresceram” etc. O que seria o fim dos festejos simboliza também um recomeço, pois é hora de falar, também, dos planos para o “ano litúrgico” que se inicia. A saída é à noite, que já cai mais cedo devido ao outono e, embora muitas famílias da vizinhança estejam reunidas para o feriado católico, o número de participantes não é muito maior do que na Cortada. É o trajeto mais curto: a capela de São Benedito, em frente à qual o mastro está fincado, fica a poucas centenas de metros da casa dos mestres. Às vezes, na volta, Mestre Ricardo conduz a banda por algumas ruas do bairro, mas neste último ano, voltou diretamente para casa, no roteiro mais curto. Devido à baixa luminosidade, e porque percebo, de forma semelhante à da Cortada, um espírito de união forte entre os membros da banda, faço mais uma vez uso da objetiva 17-35 mm de abertura f/2.8. Tento captar muitos rostos, talvez por encontrar nos olhares um mútuo reconhecimento: estivemos todos juntos nesses eventos e a obrigação foi cumprida mais um ano.

Vídeos dos quatro momentos da Festa de São Benedito 2017-2018

Na edição dos vídeos que fiz de cada um desses eventos, e que estão disponíveis no canal de O Congueiro no YouTube, consigo desenvolver melhor a ação, ao mesmo tempo em que tento expressar minhas percepções de cada data. No filme em pauta, parti do material bruto de cada dia, sem recorrer à edição que já havia feito de cada um. Procurei ser um pouco mais informativo, acrescentando a narração dos mestres, de modo a contextualizar um pouco os eventos. As sequências ficaram bem delineadas pelas passagens de áudio e pelos fade-out. Mas limitei “minha fala” às cartelas com datas e títulos dos eventos, além, é claro, de o meu discurso ser o filme, em si. A principal decisão de edição, que manteve a cronologia dos acontecimentos, foi a introdução do prólogo com a cena do auge da Fincada, comentada por Mestre Ricardo. Procurei, assim, destacar o que aprendi com os mestres. É também por essa razão que introduzi as duas falas de Mestre Rui: ele é um genuíno guardião da memória da banda, que me puxa de lado, muitas vezes, para comentar um causo do passado, ou lembrar de algum personagem, de alguma toada antiga. Ao contrário de Ricardo, para quem, talvez devido à sua juventude, “o passado está morto, não volta”; sua missão é levar seu congo adiante. A edição final do filme procura destacar os momentos e como os percebo; ao mesmo tempo, como faço em todos os vídeos, a edição do som faz uma cena se estender até a outra, criando uma continuidade que não é temporal, mas narrativa: o caminhar da banda não para; os ciclos se repetem; e as ações de cada um se renovam. O objetivo de fazer um filme de até 40 minutos obrigou-me a resumir bastante os eventos, mas procurei preservar a duração relativa entre eles. Assim, a Puxada e Fincada ocupam a maior parte do vídeo.

por Jo Name, julho de 2018.

Para citar este artigo:
NAME, José Otavio Lobo. “Festa de São Benedito (documentário, 2018, 38min.)”. In O Congueiro – congo do Espírito Santo. 2018. Acessível em: https://ocongueiro.com/2018/11/04/festa-de-sao-benedito-um-video-de-o-congueiro/

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